Qualidade
versus Eficácia
Prof.
Roney Signorini – Consultor Educacional
roneysignorini@ig.com.br
Integrei
por seis anos o Conselho Fiscal da CET, em São
Paulo.
No período, acompanhei todos os esforços da
Companhia buscando a implantação de Qualidade,
a da reserva endógena mas que pudesse ser extensiva
à toda a cidade , trabalho delicado e dedicado
de experts, exitoso na consecução em outras
empresas. De todas as medidas, dentro de um
plano traçado, restou um expediente que nunca
conseguiu ser superado, ainda que o empenho
para a sinalização semafórica, sinalização horizontal
e vertical, placas, zona azul, etc. etc., consumissem
cada vez mais os minguados recursos que a Prefeitura
disponibilizava. Mas o que não deu tanto certo
como o desejado, o esperado ? Simples, porque
a população não considerava tais medidas como
a de quem buscava Qualidade mas sim a possibilidade
de trafegar sem vigilância, sem a presença “antipática”
dos marronzinhos a aplicar multas. Conforme
a cultural política da impunidade. Sem multas,
aí sim a empresa teria Qualidade pois contrariar
interesse é inimigo feito.
Invadindo
outro cenário, o da educação, o que o tomador
desse serviço reputa como Qualidade se o que
ele busca é aprioristicamente o diploma e não
o conhecimento, o aprendizado, para enfrentar
o dificílimo mercado de trabalho ? Só ele não
sabe disso.
Aliás, esse “comprador de serviços” é um dos
poucos que não sabe o que está comprando e pagando
( ? ). É a compra no escuro. Quando as coisas
clareiam um pouco ele vira um bicho de exigências.
Afinal, ele está pagando e impensável uma reprovação.
Esta dentre muitas outras razões o leva a soltar
todos os cachorros no Enade como revolta e vingança.
Na outra ponta as IES se digladiando para buscar
respeito, consideração e visibilidade responsável
junto aos seus públicos: famílias, imprensa,
MEC, mundo intelectual e sociedade em geral.
Mas, a imagem positiva não aparece, não na justa
relação de todo o esforço despendido, de todas
as ordens e naturezas. Falta o elementar: comunicação
dirigida a cada público, evitando assim o “case”
de MKT do ovo da pata.
Como coordenador de curso, ouvi às centenas
que “... só estou aqui por causa do diploma
porque já sou profissional da área.” Ah. meu
Deus !
Então,
o que importa é ter BOA IMAGEM no mercado ?
Como conquistar essa imagem se a relação Custo
x Benefício entre os interessados não tiver
o mesmo quilate ? Qual a pedra de toque para
a justa consideração de Qualidade ? Como propiciar
ensino de boa Qualidade sem o ônus de manter
um plexus universitário à altura das exigências
de um mundo globalizado ? Ou seja, o melhor
corpo docente, os melhores laboratórios, a melhor
biblioteca, a melhor extensão, a melhor pesquisa
( iniciação científica ), os melhores conteúdos
programáticos, a rigidez nas avaliações ? Não
exagero se disser que isto basta. Ainda que
sem ar condicionado nas salas, estacionamento
gratuito, boleto de cobrança das mensalidades,
parque de PCs em rede total, diários de classe
impressos por sistema, cada sala com projetor
multimídia, etc. etc.
Qualidade com efetiva eficácia custa caro. E
acima de tudo, o imperativo que os interesses
sejam recíprocos, o do tutor e do aprendiz.
Faltou tal relação o processo fica capenga.
E mais, não se consegue Qualidade com o valor
da mensalidade na casa dos “nine,nine”.
Eficácia
é a palavra de ordem na avaliação de uma proposta
educacional, por exemplo a partir da permanência
ou não de determinado curso no elenco de cursos
da IES.
Não é possível a existência de curso de Enfermagem
onde exista só um hospital na cidade, curso
de Comunicação onde exista único jornal e emissora
de rádio, etc. etc.
Em quatro anos tem-se duzentos profissionais
“aptos” mas desempregados.
Sem falar em corpo docente (in)existente, custosos
laboratórios, biblioteca satisfatória, extensões
de complementaridade educacional como atendimentos,
práticas e estágios, seminários, palestras e
conferências. É querer uvas maduras, sem chance.
Bons
tempos quando tudo se iniciava pelo ( único
) vestibular das IES por via do Edital constando
dia, hora, conteúdos a considerar, número de
vagas, etc. etc.
Hoje o processo seletivo de ingresso se dá continuamente,
por semanas (ou meses), sem interrupção, avaliando
desiguais ( sem a isonomia legal ) como iguais.
É a concorrência atuando no setor.
A
busca da condição de Qualidade no ensino passa
necessariamente pela eficácia
dos planos de ensino das IES — PDI e CPA atuantes
—, seja na graduação regular ou nos tecnológicos
porque o fim não é outro — e deve ser — senão
a empregabilidade. Fica para depois comentário
sobre as pós graduações.
Mestres e Doutores em sala são ótimos se deixarem
de aplicar suas dissertações e teses, para semi
alfabetizados, mas impondo as realidades programáticas
das disciplinas que assumiram. Em que pese algum
esforço pessoal, mas nunca porque a IES não
podia/desejava dispensar o profissional a quem
os currículos dos diversos cursos oferecidos
não contemplavam seus saberes ( específicos
? ). Se a dispensa é onerosa o mote é apostar
no futuro e não no presente, nesse particular,
porque os “opinion makers” estão de plantão:
o aluno e/ou o mercado, lembrando que ambos
são os consumidores do “produto acabado/formado”.
As famílias e os próprios alunos estão ansiosos
por ocupações, sem o que não se terá atingido
o fim desejado: EMPREGABILIDADE. Nisso sim se
traduz Qualidade e eficácia de educação superior.
O resto é conversa de periquito australiano,
é “embromation”.
Se eficiência é saber fazer, eficácia é saber
fazer bem feito.
E tem mais, é claro, eficiência e eficácia entendido
para um não é para todos.
Tentar
impor Qualidade para ingressantes que se assemelham
a insumos de carregação, concluintes do ensino
médio no qual foram aprovados por via de aprovação
automática é contrariar a ordem natural das
coisas.
Que
tal se logo no primeiro dia de aula dos calouros
os docentes tivessem em mãos suas redações do
seletivo, seus acertos/erros no gabarito das
questões de múltipla escolha ? Ah. como o entendimento
do nível cultural da classe seria diferente.
Vinho para a água.
No setor, querer transferir um produto da Daslu
para a 25 de Março é vôo suicida, atitude kamikaze
do ponto de vista educacional. Talvez não para
a visão de negócios. Mas, que não se espere
Qualidade nessa última. É pirataria absoluta.
Como
pretender falar de Qualidade no ensino superior
se antes, nos ensinos fundamental e médio, a
matéria prima chega com defeito ? Com varinha
de condão ?
Sejamos realistas, não mais do que o rei e será
o suficiente.
Esforços hercúleos no superior não suprirão
a formação desejável e esperada para o fundamental
e médio. Antes de discutir a validade educacional
de Qualidade no superior — grande preocupação
do momento —, para a qual as IES particulares
estão(riam) prontas a implementar imediatamente,
a discussão, em tom de cobrança, deve recair
sobre as secretarias municipal e estadual de
educação. Sem o que não tem jogo. Novamente
os periquitos palradores estão no palco.
Vem
aí o novo PNE sem que fosse obtido nem 45% de
bons resultados no plano anterior. Como é que
pode ? O senhor de engenho ( MEC ) quer açúcar
com cana seca. Nem o gado consome.
Qualidade
versus Eficácia
Prof.
Roney Signorini – Consultor Educacional
roneysignorini@ig.com.br
O que se tem visto nos últimos
anos – com maior incidência de 95 para cá, depois
do surgimento da Avaliação das Condições de
Oferta, substituída pela Avaliação das Condições
de Ensino e finalmente o SINAES (Lei 10.861,
de 14/04/04), proposta pelo MEC-INEP para as
instituições de educação superior – é a conferência
de uma grande força antes ao corporativismo
acadêmico, diferente do trabalho acadêmico puro,
do que às funções executivas como condição bem
marcante de uma hegemonia no meio acadêmico.
Esse corporativismo dá pouca ou nenhuma atenção
aos méritos e resultados alcançados pelo staff
inferior. Muito menos ao anterior.
As
IES privadas continuam a buscar no elemento
causal a iniciativa funesta da troca e da substituição
de equipes. Se possível, toda ela. Ninguém “presta”
para o novo que se inicia. O velho não cabe
no novo processo e a desqualificação do trabalho
anterior – desconsiderando os pontos bons, inclusive
– leva ao equívoco de refundar e desconstruir
apenas em conceitos o que a práxis contrapõe,
sobretudo se afoitamente. E dá-lhe um turnover
geral, não só nas novas mas também nas IES mais
antigas. E o rodinho passa da telefonista ao
Coordenador, dos bedéis ao corpo docente.
O
que fica, portanto, é a descontinuidade das
ações e o desprezo pelos resultados que antes
se alcançavam. Trata-se, aliás, da própria cultura
político-partidária brasileira que entende,
não poucas vezes, desmerecer o trabalho de governantes
anteriores e assim não dar continuidade a obras
e políticas acertadas, impedindo o progresso
da sociedade. Fica estabelecido um conflito,
seja por acaso ou por causa, entre a academia
e a prática. Esta última sempre cobrada e carregada
de experiência, só cabendo aos intelectuais
a definição de modelos, jamais sua arquitetura
e operacionalidade. Infelizmente, não é o que
se tem visto nas instituições de ensino que
passaram a privilegiar doutores e mestres frente
às Coordenações de cursos, que lograram tais
títulos com uma dissertação ou tese de focos
exclusivos, num único minuto das horas do conhecimento.
Logo-logo se reduzirão a poucos segundos pela
obsolescência de tal conhecimento com destino
ao descarte. Há quem diga que em 72 horas o
conhecimento se renova.
Uma
pós-graduação é fase demais delicada no percurso
de um intelectual e abraçar essa viagem cultural
não tem volta. É a essência justificadora da
educação continuada, de que tanto carecemos.
Alocar
um mestre ou doutor – senão no grupo de notáveis
da instituição – frente à coordenação de cursos
é negar o empenho e esforço da dedicação a uma
pesquisa. Que não se exaure nesses dois graus,
mas devem ir além. Fora o alto custo para o
Estado ou para o indivíduo se às próprias expensas.
Esse esforço de mestres e doutores garante,
em sala de aula, avanços nos conhecimentos e
na pesquisa, porquanto esses intelectuais são
donos, em geral, de um saber muito específico
de determinado campo do conhecimento que no
mais das vezes é inútil diante do todo coordenador-administrativo,
função que carece quase cem por cento de experiência.
Poucos
são os titulados, para não dizer nenhum, que
trazem um mestrado profissional. Os MBAs e os
MBCs** apenas credenciam especialistas, não
mestres, porém a bola da vez é o mestrado e
doutorado para o magistério. Melhor, portanto,
seria mesmo colocar os titulados em sala de
aula, nunca frente a uma coordenação, cuja função
vai muito além de gerir, gerenciar como gestor
cuja exigência máxima é a prática, a fazeção,
conhecendo o chão da fábrica.
A
iniciativa particular não pode replicar o engano
dos cursos públicos superiores, cuja exigência
legal ou estatutária centra no eixo administrativo
um livre-docente, um doutor ou mestre gravitando
entre dezenas de titulados.
O
empreendimento da educação privada tem outros
compromissos, não dissociados mas também não
similares aos da educação pública, que não pode
ser massiva, que deve formar professores com
excelência, em progressão geométrica porque
temos pressa. Essa deve ser a responsabilidade
maior do Estado, além da pesquisa e da extensão
sérias, comprometidas com a Nação.
Doutorado
em amebas ou semiótica não credencia para uma
Coordenação, não autoriza a gestão de qualquer
curso que vise ao mercado de trabalho, última
instância de um investimento particular na graduação.
E a grande maioria dos cursos vai pela estrada
do emprego. E tem mesmo de ir.
Muito
breve o mundo profissional brasileiro vai se
ressentir de ações não impetradas nas graduações
se não trocarmos o blá-blá-blá do “achismo”
acadêmico pela realidade contundente da necessária
ocupação dos espaços de trabalho pela juventude,
já de si tão desencantada.
Não
foram poucas as vozes que até aqui já deram
o diapasão mas o INEP e mantenças continuam
com ouvidos de mercadores.
O
prof. Edson Franco (UNAMA) redigiu um excelente
tratado sobre o assunto, sobre o perfil necessário
para um Coordenador de curso, alguém que transite
com segurança, proficiência e domínio nos fazeres
universitários. Predicados que são insubstituíveis
para a elaboração do melhor currículo, com disciplinas
e respectivos conteúdos consoantes aos mercados,
à prática para a empregabilidade levada às últimas
consequências, instalação e manutenção de laboratórios,
acervo bibliográfico, etc. etc. Alguém com capacidade
e habilidade bastantes para a construção de
um ótimo calendário letivo, um líder que some
e multiplique opiniões favoráveis, abalizadas
no tête à tête ou em reuniões grupais, além
de profundos conhecimentos das rotinas de secretarias
e até mesmo um eficiente calendário de provas.
Se a (nova) política financeira adotada pela
IES é de mensalidade X ou Y, isso não altera
o cenário. Até porque, se tal política é medida
adequada ou não reverterá pelo resultado mas
a qualidade do produto, a formação, é preocupação
necessária pela própria manutenção do empreendimento.
Massificação
e fazeção não combinam com elitização, não dá
liga.
Uma
boa equipe compondo o corpo docente deveria
ter no mínimo 30% de profissionais do mercado
e pra fechar o saldo, 30% especialistas, 20%
mestres e 20% doutores, nessa ordem.
**
MBAs: Master Business Administration e MBCs:
Master Business Communication
|
Pesadelo
é melhor do que o despertar
Prof.
Roney Signorini – Consultor Educacional
roneysignorini@ig.com.br
A
frase, por inteiro, é do impagável Millor Fernandes:
"No Brasil de hoje, o pesadelo é melhor do
que o despertar."
E
não é para menos quando o noticiário da mídia assombra
os operadores da educação com matérias e reportagens
que são autênticos tapas na cara com os títulos
"País só cumpre 33% de metas de educação",
"Federais ainda têm 45% das vagas", "Ajuda
do BNDES a faculdade não sai do papel", "Caixa
cobra 37 mil fiadores de universitários do FIES",
e por aí vai.
Quanto
ao descumprimento das metas do PNE, na ordem de
67%, é de se perguntar no que constituirá o novo
plano, já em gestação, com período abrangente até
2020 ? Ora, se 2/3 do plano não conseguiram consecução
melhor seria adiar um novo, salvo se ele virá para
impor correções de rotas aos 2/3 que não foram realizados,
exclusivamente. Pois, corremos o risco de acumular
aos 2/3 outros tantos porcentis que a dívida social-educacional
nunca poderá ser resgatada. E eram 294 as ditas
metas, criadas em 2001. E a avaliação sobre o quadro
não foi encomendada politico-partidariamente. Foi
realizada pelas universidades federais com apoio
do Inep, ligado ao MEC. É importante considerar
que o levantamento foi feito de 2001 a 2008, ou
seja, dois anos de FHC e seis anos de Lula. Por
certo, em 2009 e 2010 as coisas pioraram.
Só
para ilustrar, na educação superior o plano estabelecia
uma meta de 30% dos jovens na universidade, porém,
em 2008 o índice acusava só 13,7%.
Traduzido
em números absolutos são milhões.
É
de pasmar e de querer voltar para a cama e ao pesadelo
quando se sabe que o país ainda tem 16 milhões de
analfabetos, de 15 anos ou mais, que não sabem escrever.
Fora os analfabetos funcionais ( ? ). Ou seja, no
Brasil existem 16,295 milhões de pessoas incapazes
de ler e escrever pelo menos um bilhete simples.
Levando-se em conta o conceito de "analfabeto
funcional", que inclui as pessoas com menos
de quatro séries de estudo concluídas, o número
salta para 33 milhões.
E
a culpa é atribuída à falta de recursos das burras
governamentais quando abundam Reais em meias e cuecas.
Comentar
que as universidades federais não conseguiram preencher
45% de suas vagas é comédia, não fosse tragédia.
Vagas dispostas, corpo docente alocado para as turmas,
primeiro dia de aula e não tem ninguém na sala.
Tem
nada não. O professor volta para a sala dos docentes
e fica lendo jornal. Afinal quem paga, o contribuinte,
não vê nada porque é o país onde ninguém sabe de
nada, escuta e vê nada.
Enquanto
isso, o BNDES ( leia-se contribuinte ) está "amargando
prejuízo"
grande
pois não conseguiu colocar uma linha de crédito/empréstimop
às IPES—Instituições Privadas de Ensino Superior
— porque nenhuma instituição conseguiu, desde o
lançamento do programa, há 5 meses, colocar o dedo
mindinho na piramidal verba de R$ 1 bi. O motivo:
as IPES alegam que para obter o empréstimo os requisitos
não são rígidos demais, são intransponíveis.
Só
um avatar para transpor esse buraco, e convocando
o Diretor Cameron.
Isso
porque as particulares oferecem 75% das vagas no
ensino superior e com milhares ociosas. Aqui o conceito
de ocupação é diferente: não tem aluno não abre
a turma/curso. Não há despesas, não há repasse.
É
bem na linha do "ganhou mas não levou",
perdeu-se o volante da Mega.
E,
na contra partida, por paradoxal ou antítese, até
julho de 2009 a Caixa Federal acumulava um total
de 250 mil contratos em fase de quitação da dívida,
decorrente do Fies. Mas, 37 mil fiadores foram acionados
dentre os mais de 50 mil inadimplentes. E o jurídico
da Caixa já sabe: só acionando e penhorando bens
do fiador. É de chorar sabendo que há docentes lendo
jornal na sala dos professores porque não existe
aluno na sala "programada".
Em
tempo: por recente portaria do MEC, a de nº 234,
de 4/3/2010, são convocadas trinta e duas instituições,
entre Academias, Associações, Sociedades, Uniões
e Confederações, além da UNE, ao oferecimento de
lista tríplice para indicação à composição das câmaras
do CNE. Não constam a ABMES, o SEMESP, os SINPROs
e tantas outras entidades que efetivamente representam
o setor educacional nacional. Dejà vu !
O
leitor ( contribuinte ) está com a palavra.
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