Calandra
e LinoType
Prof.
Roney Signorini – Consultor Educacional
roneysignorini@ig.com.br
Quando
dei os primeiros passos no jornalismo, na década
de 60, caí no poço da realidade profissional e do
primitivismo secular da impressão de notícias e
reportagens.
Sem pauta definida, saía às ruas para coletar fatos
e transformá-los em notícias.
Na
volta, sentado diante de uma Remington, redigia
o apurado entregando as laudas para os linotipadores
— profissionais que “digitavam” os textos em máquinas
LinoType.
Na volta, sentado diante de uma Remington, redigia
o apurado entregando as laudas para os linotipadores
— profissionais que “digitavam” os textos em máquinas
LinoType.
Os tempos eram outros, claro, com jornalismo de
imersão profunda e aguardava-se cansativamente o
instante em que “aquelas maravilhosas máquinas”
vomitassem as linhas (a uma ou duas colunas) para
seguirem até a revisão(?). A revisão era feita por
qualquer semialfabetizado, pois o que importava
era a fidelidade do texto na lauda em comparação
com o que havia sido digitado. Nada de correção
do vernáculo, sugestões de
propriedades vocabulares, etc. etc. Esses “revisores”
nunca tinham ouvido falar de Napoleão Mendes de
Almeida, nem do Aurelião, nem de Cretella Júnior.
Simplesmente, o que estava na lauda deveria estar
no “copião” para a revisão.
Após ”digitado”, o texto era levado para a calandra
— um cilindro de aço envolvido em feltro que rolava
manualmente em dois trilhos, sobre o texto em chumbo(linotipado).
Era aí que entrava o “revisor”. Se houvesse algum
problema a linha com o descuido voltava para a linotipia,
ocorrendo, então, a emenda.
Tudo nos conformes, o conjunto linotipado seguia
para a mesa de montagem da página.
No meio tempo, habilidosos gráficos compunham as
manchetes ou ilustrações (clichês) e os títulos
com as “caixas” — gavetas que tinham tipos maiores
(até garrafais) para encimar os textos redigidos.
Pelo “timing” da carruagem já passava de uma da
manhã.
Hoje
isso não existe e é só história de velho jornalismo,
mas o relato deve servir aos modernos que trabalham
com um PC montando seus textos, matérias e reportagens
via algum PageMaker da atualidade, sem o cheiro
insuportável do chumbo derretido e das tintas
vagabundas, nauseantes.
Assim
é que digitado o texto no PC (terminal da redação),
ele segue para uma equipe de diagramação — que também
usa um paginador sofisticado alocando o material
com absoluta precisão de modo a impedir que assunto
de polícia caia no caderno de economia.
Até
aqui providenciei uma aula de jornalismo, para principiantes,
com o objetivo de deixar clara a inadmissibilidade
do ocorrido na última prova do Enem. Vai além da
incapacidade, da incúria e da irresponsabilidade.
Afinal não estamos falando de qualquer graficazinha
do interior, do sertão dos confins, que, mesmo assim,
pagina e diagrama um jornal, tabloide ou standard,
sem equívocos.
Como pode, uma gráfica do porte da RR Donnelley,
com a mais alta e sofisticada tecnologia editorial
e de impressão, promover o desastre dos dias 6 e
7 de novembro no Enem? Tem gato na tuba e está miando
no tom de lá menor.
Na contrapartida, o Tribunal Federal do Ceará, acolhendo
manifestação do Ministério Público, manda anular
os exames e ainda proibir a divulgação do gabarito,
mas o MEC contesta a medida e o presidente Lula
elogia o Enem na segunda-feira, embora hoje admita
a possibilidade de novo exame.
Não bastasse isso, o MEC quer processar o repórter
que divulgou o tema da redação por um celular, dentro
do sanitário de uma escola de Recife. E o desplante
chega pela editora-chefe do site do Jornal do Commercio,
Benira Maia Barros, afirmando que não estava planejado
o repórter divulgar o tema da redação. Mas que doido!
Com a informação em mãos, não foi o jornal que a
publicou? Não fosse a efetiva intenção, guardassem
a informação. Coisa mal contada, não é mesmo?
Diz o MEC que técnicos vão esclarecer por que a
aplicação de novo exame aos prejudicados em nada
afetará o direito da isonomia, pois a espetacular
TRI – Teoria da Resposta ao Item – resolve o problema,
quanto às eventuais dificuldades das questões propostas,
embora não fale sobre as eventuais facilidades contidas
nelas. Afinal, o propósito é reprovar, avaliar ou
aprovar?
Digamos, para exemplificar, que eu, candidato, não
tenha sido classificado na primeira oportunidade
e me julgue apto a dar respostas aprovadoras ao
segundo teste — alternativo para os que tiveram
problemas no caderno amarelo, como fica?
Então, é possível justificar o desastre e eventual
nova proposta de exames com base na TRI, como sendo
bálsamo ou placebo para milhões de criaturas tão
frustradas que restaram desde domingo, totalizadas
pelos primeiros interessados e familiares?
A
gráfica diz que assume a responsabilidade.
Qual? A de refazer as 4.6 milhões de provas? Com
quais recursos, dela própria ou corroborada pelo
MEC que despendeu milhões, até aqui, com todo o
processo?
E as Federais, burladas no processo, que não terão(iriam)
recursos, agora, para bancar seus próprios vestibulares?
A
propósito, aos ausentes nos dias 6 e 7 seria permitido
ingressarem no certame da segunda proposta? Não
é nada? Quase 30% foi o índice de abstenção, perto
de 1.300 milhão, o que de certo modo “ajuda” muito
a quem compareceu. Grosso modo, o candidato estaria
disputando vaga com os menos 30% de ausentes. Quando
ela – eventualmente – se dará, em dezembro ou janeiro
? Esquece! As aulas de 2011 iniciam-se em 01 de
fevereiro para se poder cumprir os legais e exigidos
dias letivos semestrais, conforme a LDB.
Segundo
a educadora Maria Helena Guimarães, uma das criadoras
do exame em 1998 durante a gestão Fernando Henrique
Cardoso (PSDB), “a mudança do objetivo do Enem –
que passou de avaliação do perfil dos estudantes
do ensino médio para seleção de alunos para as universidades
e institutos federais a partir de 2009 – tornou
a prova vulnerável e cobiçada – um objeto de desejo
muito valioso”. Querendo dizer (?) que é impossível
ou muito mais difícil ter controle de todas as etapas
do processo, ou seja, antes era simples avaliação
do alunado, das escolas, dos programas/conteúdos
mas agora é disputa mesmo.
Laurentino Gomes, autor do livro 1808, está doidão
dentro das calças pois sua obra foi citada indicando
que a Abertura dos Portos se deu em 2010, quando
ocorreu duzentos anos antes. Pode?
De
boas intenções e gente que se achava insubstituível
o cemitério está lotado.
E.T.
O IBGE informa que o país conta hoje com mais de
6.500 municípios mas o Enem só ocorreu em 26% deles,
ou seja, 1.700 cidades. Dá pra imaginar os transtornos
de deslocamentos dos estudantes. Que pena!
|
Pode
?
Prof.
Roney Signorini – Consultor Educacional
roneysignorini@ig.com.br
Dia
desses a Fuvest deu publicidade da relação de candidatos
inscritos ao exame de 2011
oferecendo o número de vagas, o volume de inscritos
por curso e a relação candidato/vaga.
Nenhuma novidade se comparada à mesma relação de
2010 e anos anteriores, despontando, como cultural,
as mesmas e sempre carreiras campeãs: medicina,
direito e administração deixando na rabeira do processo
todas as engenharias e licenciaturas.
A
delicadeza na análise reside na persistência social
de tais escolhas quando o mercado está
exigentemente ávido por engenharias — civil, elétrica,
mecânica, alimentos e ambiente.
Agrava o fato de a sociedade só enxergar o umbigo,
ou seja, o que hoje o mercado reclama, sem no entanto
haver qualquer preocupação com o futuro. Em outras
e simples palavras, o mercado de trabalho não será
o mesmo daqui a quatro ou cinco anos quando então
os ingressantes de agora serão os egressos
de amanhã.
Se há culpados nesse cenário pouco ou nada importa
mas o todo social vai pagar pesado
pedágio pela incúria. Mas, se existem culpados,
há toda uma cadeia em cipoal determinando há muitos
anos aquelas escolhas e o exemplo maior fica para
as escolas de Direito no país que já somam um montante
maior que todas as escolas no planeta. Pode
?
A
que se atribuiria o desinteresse pelas engenharias,
sobretudo pelas licenciaturas ?
Quanto às primeiras, a falência do ensino de matemática
pode explicar ? Com relação às segundas, o baixo
salário nas escolas públicas — maior campo de empregabilidade
—também explicaria isso ?
Se houvesse redução drástica no volume de vagas,
tanto nas escolas de Direito como Administração,
pela dificuldade de acesso aí inerente, faria a
juventude migrar para outros cursos ?
Há influências determinantes tanto para a procura
dos cursos “campeões” como aos “derrotados”, por
exemplo, por contaminação familiar, durante a educação
do médio, em cursinhos, etc. etc. ?
Insisto na escolha temporal: o ingressante só estará
formado daqui a quatro ou cinco anos e lá na frente,
com certeza o quadro será outro. E com mais absoluta
certeza ofertando vagas de emprego em proporção
decuplicada às de hoje, nas áreas ora desconsideradas.
Nossos poucos cursos de engenharias e licenciaturas
são poucos e jurássicos. Para as “engs”
faltam docentes e laboratórios, para as “licencs”
inexiste norte magnético com formações
capazes, com novas tecnologias pedagógicas. Elas
sequer têm no currículo disciplinas voltadas
para a EAD. Pode ?
Apenas
para ilustrar, a Fuvest apresenta 560 vagas para
Direito com 10.668 candidatos mas Pedagogia oferece
180 vagas para 995 candidatos, enquanto que Geografia
oferta 170 vagas para uma procura de 778 candidatos,
História contabiliza 270 vagas para 1.659 candidatos.
Em Letras, com 849 vagas ( um sucesso ) tem 3.333
candidatos (lá vai a língua ladeira abaixo ).
O
Brasil, hoje, com seu rebanho, ocupa o honroso primeiro
lugar em exportação de carne mas as vagas de Medicina
Veterinária somam só 140 para uma procura da ordem
de 2.152 candidatos. Na ressalva, Química-Licenciatura
tem 70 vagas para 269 candidatos. Pode ?
As interrogações colocadas são para o número de
vagas como para o de candidatos. Pode ?
Definitivamente,
não temos um plano nacional de educação mas o para
o próximo decênio ( 2011-2020) está se discutindo
isso, embora o anterior (2001-2010)tivesse falhado
em 66% de seu escopo. Com isso, no Congresso a questão
ferve ou amorna, o CNE quase descarta sua responsabilidade,
a iniciativa privada, pifiamente introduz na sua
agenda de discussões, o MEC, como peão condutor
de boiada conduz as rezes. Pode ?
Até
aqui, tudo indica que as escolas superiores, sobretudo
as privadas, não têm um “learning center”, reduto
de discussões curriculares e programáticas, com
influências majoritárias sobre
a oferta de cursos que interessem às instituições
e ao país, para deixarem de vez as comodites e avançar
com tratores sobre as manufaturas, a exemplo de
um Japão. Prevalece a síndrome do umbigo. Ninguém
preocupado e interessado em atravessar os séculos
como inúmeras escolas européias e americanas, para
não falar nas asiáticas.
Como
diz Ryon Braga ( Revista Ensino Superior -SEMESP),
não é que as escolas estão interessadíssimas nos
meios mas não nos fins, pouco importando o amanhã
mas preocupadíssimas com o presente. Pode
?
A
propósito e para finalizar, quantos jovens você
conhece que tiveram a escolha/opção acertada de
cursos superiores com fundamento de vocação, de
felicidade, de realização pessoal e profissional
?
No
entremeio, como vai a educação no fundamental e
médio ? Ah! Uma beleza! Na base do não quero nem
que Deus me ajude porque pode estragar. Só o Diabo
tem a solução.
Cachorro sem rabo não passa sobre pinguela, ou,
passarinho que vive ao lado de morcego acaba dormindo
de ponta-cabeça.
Mas afinal onde está o problema, como última pergunta
?
Arrisco dizer que é a mais alta falta de informação.
A desinformação total e absoluta, decorrente da
ausência de leituras, seja de jornais, revistas,
TV e rádio que apregoam sistematicamente como “surfar
o mercado nas ondas das oportunidades”, conforme
Roberto Macedo.
Para
arremate, envolvido com seletivo diferenciado, agendado
e de entrevistas complementares, sujeitando os seletivandos
a um questionário “básico” de entrevistas, as porcentagens
de distanciamento dos noticiários de jornais e revistas,
afora os de TV e rádio, os resultados foram aterrorizantes,
em clima de globalização: menos de 10% estão lendo
jornais e revistas semanais, assistindo aos telejornais
ou ouvindo notícias em rádio. Tem de tudo que não
importa para a profissionalização e empregabilidade:
literatura espírita, de auto-ajuda, gospel, romances,
sertanejo, axé e outras modalidades musicais. E
o que é pior, “os caras” da geração Y
estão aí, na porta de entrada das nacionais ou não,
com um “iPod” pendurado nas “orelhas”, Pode
?
Mas
o MEC, por derradeiro, via Enem, entende que não
podem participar do certame os que
foram reprovados. Por que ? Submetam-se a quantos
seletivos aparecerem até darem respostas aprovacionais.
Qual o problema ? Acertou tá dentro !
Por
acaso, o MEC/CNE restringe o número de vestibulares/seletivos
em instituições particulares, impedindo que o candidato
não se submeta ao vestibular/seletivo seguinte,
mesmo que ele ocorra na próxima semana . Qual o
problema ?
Não
por acaso, em Brasília, tem gente se refestelando
nos melhores restaurantes da cidade, após o expediente:
Felicitá, Famiglia Pomodoro, Savassi, Taí Delivery.
Eta nóis!!!!
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