Fracasso do Direito no
Exame da OAB
Prof.
Roney Signorini – Consultor Educacional
roneysignorini@ig.com.br
Em recente e ótimo artigo publicado
pelo Dr. Hélcio Corrêa Gomes (O Exame da OAB e
fracasso do Direito - CM Consultoria), o colega,
com todo o respeito, quase exaure o assunto da
formação dos universitários nos cursos jurídicos
nacionais.
Conduziu
análises curriculares, programáticas/conteúdisticas
e adicionou valiosas contribuições de grandes
pensadores como Kant e Montesquieu.
Ao
"quase exaurir" deixou implícita a
modalidade da "fazeção", ou seja,
os universitários estão só antenados com os
códigos, sem o exercício diário e sistêmico
da prática que implica em sempre cotejar as
fontes do Direito, como a Lei, a Doutrina, a
jurisprudência, os usos e costumes. Dá a perceber
que ignoram sequer a tridimensionalidade do
Direito, conforme Miguel Reale.
De
fato, existem hoje cursos sem rumo magnético
quanto à formação do bacharel ser um prático,
um parecista, um candidato ao Ministério Público,
à Magistratura ou até às Secretarias de Segurança.
Carreiras alternativas e de grande brilho.
Mas,
porque os candidatos ao Exame da OAB não se
saem bem, com expressivos índices de reprovação,
ao contrário, negatividade ?
Falta-lhes nos cursos, docentes, profissionais,
que militam no cotidiano forense, que não têm
o domínio da prática até as últimas conseqüências
?
Ao contrário, tais docentes e profissionais
de bancas advocatícias se esmeram na oferta
de conteúdos. Mas os alunos estão se apropriando
de repertórios previamente elaborados ( o acessível
copia e cola de CDs de petições ). Assim, na
construção de uma petição bem vazada têm pouca
dominância de linguagem expositiva, persuasiva
e argumentativa, além de carências técnicas.
Não
é um fato e fenômeno isolado pois hoje tudo
está frente ao copia e cola, desde tarefas solicitadas
no ensino médio passando pelos trabalhos universitários,
desaguando na Iniciação Científica, até mesmo
em dissertações de Mestrado e teses de Doutorado.
Ademais,
outro braço de vital importância para esses
estudantes é um estágio com a melhor qualidade,
atuante, proativo, dinâmico e que sabidamente
não é propiciado nem em 10% dos abrigadores.
Nisso prevalecendo a "menos valia".
Ou
seja, ao invés de exercitarem o eixo duro da
contenda, são isso sim meros carregadores de
pastas, sem nenhum resultado efetivo de responsabilidade
social e de cidadania concreta. Sem falar na
diversidade que o Direito ganhou, distância
abissal dos depoimentos de Kant e Montesquieu:
ambiental, rural, cibernético, globalizante,
enfim.
É
hora de tanto os cursos como a OAB assumirem
especialidades para o Exame. Como pode alguém
se submeter ao generalismo se tem opção por
especialismo. Se o Exame não está consoante
à modernidade, nada adiantará insistir na avaliação
de um em detrimento de outro. Já é hora de credenciarmos
advogados por área de atuação. Se o interesse
é pelo Penal não há porque avaliar o Tributário,
e assim por diante.
Há
uma insistente perseguição da OAB contra os
cursos ( cumplicidade com o MEC ? ) mas há que
diferenciar muitas condições : cursos e "os
cursos", ou seja, em razão da regionalidade,
dos suportes jurisdicionais locais, do corpo
docente possível ao desejável, do volume de
Mestres e Doutores que a cidade oferece/permite
mas nem por isso deixando de realizar um propósito
focado.
Não
é possível continuar a se exigir um profissional
completo, para Quexeramobim da Serra, para atuação
plena se na cidade sequer existe uma indústria.
A querer mais graduação na carteira, que se
submeta a Exame complementar e adicional de
(pro)suficiência nela.
Complicado
não é, basta a vontade política de inaugurar
novo tempo profissional frente a um território
tão grande e diverso. Quem não tem competência
que não se estabeleça.
A propósito, especialista médico em oncologia
pélvica não tem como atender caso de pediatria.
Recomenda um colega. É o típico espírito de
porco, não de corpo.
IN DUBIO PRO IES
Prof.
Roney Signorini – Consultor Educacional
roneysignorini@ig.com.br
A
exemplo do que ocorreu com o Exame Nacional
do Ensino Médio (Enem), a medida mais coerente,
para o momento, será o cancelamento do Exame
Nacional de Desempenho do Estudante (Enade)
pelo Ministério da Educação (MEC).
Enquanto
o primeiro teve o conteúdo da prova invadido,
fato que prejudicou mais de quatro milhões de
candidatos – todos interessados numa vaga ao
ensino superior nas escolas públicas e privadas
–, o grande mal, agora, acomete a saúde dessas
escolas, únicas vítimas no momento. E não é
pouco o que está em jogo via equação complexa
dos resultados, que pode asfixiá-las se não
lograrem os conceitos 3, 4 ou 5, já que o Enade
tem parcela importantíssima nos índices de avaliação
do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC).
Integrantes
do Fórum das Entidades Representativas do Ensino
Superior Particular encaminharam na quinta-feira,
22, um requerimento ao presidente do Inep, Reynaldo
Fernandes, solicitando o imediato cancelamento
das provas do Enade, marcadas para 8 de novembro.
Segundo eles, o ocorrido "coloca sob suspeita
o sigilo da prova e representa um risco para
os alunos das instituições de ensino, considerando
que serão avaliadas com base nesse processo
potencialmente viciado".
O
MEC recusa-se a cancelar dito exame, sob a alegação
de que o Ministério Público de Petrópolis (RJ)
diz não ter havido vazamento do conteúdo das
provas. Há uma questão que traz preocupações,
porque a mídia toda mostrava o que de fato ocorrera:
as provas não estavam lacradas e ninguém sabia
o que acontecera com os demais envelopes. Seria
prudente que o Ministério Público Federal tomasse
alguma atitude em relação ao controle e transparência
do exame, pois qualquer critério que ofenda
a integridade do exame é inquietante.
Ainda
não ficou esclarecido para onde iam aqueles
envelopes, qual o destino ou destinos das caixas.
Quem as recebesse (deslacradas) teria acesso
aos conteúdos, tornando-os, portanto, vulneráveis
a terceiros (!! ??).
E
as demais caixas que certamente também se encontravam
em trânsito e que não tiveram a mesma "sorte"
das encontradas, seguiam em iguais condições?
Se afirmativo, o vírus está em todo o território
nacional e ninguém contraria essa afirmativa
com total isenção.
Raro,
rarissimamente, já se ouviu falar em cancelamento
de vestibulares em IES particulares, decorrente
de vazamentos, tal o zelo para evitar incidentes
dessa natureza. O cuidado é tanto que uma comissão
designada para confecção e aplicação das provas
chega ao ponto de fechar por 24 horas a gráfica
que imprime o material, incinerando-se a chamada
"língua" e o "rabo" do que
a rotativa expele. Só quando os registros da
impressora estão afinados é que se processa
em definitivo, com imediato ensacamento em envelopes
plásticos, rotulados e lacrados a quente. Tudo
é acompanhado pela comissão com olhos muito
abertos.
Da
gráfica segue por caminhão para empresa de transporte
de valores, merecendo a distribuição por apurada
logística até os prédios onde ocorrerão os seletivos,
entregues somente no dia e hora antes, diretamente
ao Coordenador do local. Este, por sua vez,
reúne todos os fiscais e auxiliares de salas
abrindo sob seus olhos as caixas lacradas com
papel gomado timbrado, com os sacos plásticos
que contêm os cadernos de questões. Tudo absolutamente
seguro.
No
mínimo causa espanto, para não dizer inconformismo
e revolta, o transporte daquelas caixas sem
lacre. É também inacreditável e inaceitável
quando está em jogo a saúde das instituições
que poderão fenecer ao crivo dos indicadores,
que alimentarão os vários índices criados pelo
Inep.
Se
não houve consumação do delito na ponta, supõe-se
que ao menos houve tentativa, que também é passível
de punição pelo Código Penal. Com o flagrante
da polícia, há indícios, há suspeitas de tentativa.
É o que basta porque, antes da avaliação do
alunado, está a avaliação dos cursos, estes
sentados no banco dos réus. Assim, in dubio
pro reo, e com tal princípio jurídico o MEC
tem de agir. Pelo cancelamento, antes que seja
tarde!